Coluna Bernadete Alves - dia 14/02/2018

Fraternidade e Superação da Violência é o tema da Campanha de 2018

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil lançou, nesta quarta-feira a Campanha da Fraternidade 2018, com o tema Fraternidade e Superação da Violência e com o lema “Vós sois todos irmãos”, uma citação à frase de Jesus. A tradicional mobilização da Igreja Católica, que une evangelização e ação social, foi presidida pelo presidente da CNBB, cardeal Sérgio da Rocha, ao lado da presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia e do coordenador da Frente Parlamentar pela Prevenção à Violência e Redução dos Homicídios, deputado Alexandre Molón (Rede-RJ).

O Cardeal Dom Sérgio alertou contra 'soluções simplistas' para a crise da violência e disse que o documento aponta formas e tipos de violência no Brasil, dando destaque às praticadas contra os negros, os jovens e as mulheres. “Os grupos sociais vulneráveis são as maiores vítimas da violência”, disse o presidente da entidade, cardeal Sérgio da Rocha.

O presidente da CNBB listou também como prática violenta, a corrupção. “A corrupção é uma forma de violência, e ela mata”, disse o cardeal. Segundo ele, “ao desviar recursos que deveriam ser usados em favor da população, os políticos acabam promovendo uma outra forma de violência contra o ser humano, a miséria”.

“A Igreja sempre tem alertado sobre a perda de direitos sociais. Não podemos admitir que os mais pobres arquem com sacrifícios maiores. Precisamos de políticas públicas para nos ajudar a superar e a assegurar os direitos fundamentais que as pessoas têm”, defendeu o cardeal.“Queremos superar também formas de violência como as representadas pela miséria e pela falta de vida digna”, argumentou o religioso, que criticou também os políticos que vêm adotando em seu discurso o uso da violência como forma de combate à violência.

O presidente da CNBB, cardeal Sergio da Rocha, alertou contra o crescimento de “soluções simplistas” para a violência. Disse que a solução não envolve facilitar o acesso a armas pela população, mas investir em justiça social. “É um grande equívoco achar que superamos a violência recorrendo a mais violência. Por isso insistimos que a atitude deve ser de não violência. Então não podemos favorecer comércio de armas, facilidade para pessoas terem armas. Nós queremos responder ao problema da violência com a justiça social, com fraternidade nos seus diversos níveis”, afirmou. Segundo o cardeal, a Igreja Católica vem atuando no sentido de esclarecer seus seguidores sobre o risco desse tipo de política. “A Igreja está orientando os eleitores, ajudando-os a formar sua consciência e a identificar quais candidatos estão comprometidos com a paz”, disse.

Ainda pontuando as formas de violência, ele citou o uso das redes sociais, onde, segundo ele, identifica-se “um triste crescimento da agressividade”. O cardeal disse, ainda, que os meios de comunicação “são vitais para a superação da violência”. Ele, no entanto, criticou as programações violentas em busca de audiência. “Quanto mais filmes violentos assistirmos, mas violentos nós seremos”.

A ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, disse que a iniciativa dá a “tônica à imperativa mudança que se impõe, de que o irmão é um aliado” e que o combate à violência exige solidariedade e capacidade de amar. A ministra falou que o poder Judiciário procura resolver os conflitos na sociedade de forma “racional” para buscar a pacificação. “Precisamos caminhar de mãos dadas, e não de punhos cerrados. Essa é a melhor forma de lidarmos com essa campanha. Minha mãe dizia, quando eu era criança, que se tivesse algum problema era para eu procurar um adulto por perto. Hoje vejo mães e professores desconfiarem e temerem adultos que chegam próximo às escolas. Quem se aproxima pode ser inimigo. Estamos fazendo do outro não um irmão, mas um inimigo a se combater”, argumentou a magistrada.

O coordenador da Frente Parlamentar pela Prevenção à Violência e Redução dos Homicídios, deputado Alexandre Molón (Rede-RJ), disse que a campanha da CNBB aborda uma das grandes preocupações do país, em função do enorme número de homicídios aqui praticados. “Foram mais de 60 mil homicídios em 2017, e foram 61 mil em 2016. Se considerarmos que a bomba de Nagasaki [explodida no Japão pelos norte-americanos ao fim da 2ª Guerra Mundial] matou instantaneamente 80 mil [pessoas], podemos dizer que a cada ano morre, no Brasil, o equivalente a uma bomba de Nagasaki”, disse o deputado.

Beija-Flor de Nilópolis vence Tuiuti por apenas um décimo

A insatisfação do povo brasileiro com as políticas sociais, os políticos e a corrupção foram os campeões do Carnaval 2018 no Rio de Janeiro. A Beija-Flor de Nilópolis que criticou os problemas sociais como corrupção e desigualdades venceu a Paraíso do Tuiuti, que fez transformou Temer em um Vampiro Neo Liberal, por apenas um décimo, e se consagrou a campeã do Carnaval de 2018 no Rio de Janeiro.

A disputa foi acirrada e a cada nota ouvia-se Fora Temer. A Beija-Flor foi campeã com 269,6, seguida da Paraíso do Tuiuti com 269,5. O quesito samba-enredo foi o primeiro usado para estabelecer o desempate entre agremiações que obtiverem a mesma pontuação. A Beija-Flor e a Paraíso do Tuiuti, ao levarem para a Sapucaí uma crítica à crise política do Brasil e os efeitos sociais que acarreta, representam a vitória do grito do povo, neste ano de eleição.

A escola apresentou o enredo "Monstro é aquele que não sabe amar - Os filhos abandonados da pátria que os pariu”, baseado no livro de terror Frankenstein, de autoria de Mary Shelley. Na obra, um cientista dá vida a uma criatura construída com partes de pessoas mortas, tornando-se uma figura feia. No desfile, a figura foi usada para criticar os problemas sociais como corrupção e desigualdades. A violência nas ruas do Rio de Janeiro, a corrupção na política e a intolerância religiosa foram alvos dessa grande catarse popular que a escola de Nilópolis levou à Sapucaí pelas mãos do carnavalesco Cid Carvalho.

A escola foi a última a desfilar na noite de segunda-feira e seu refrão foi cantado pela multidão que seguiu a escola pela Sapucai. E foi justamente o Samba-Enredo que consagrou a Beija-Flor, com quatro notas 10,ficando à frente da Tuiuti por apenas um décimo, o suficiente para somar 269,6 pontos e ser campeã do carnaval carioca de 2018.

As escolas de samba foram avaliadas em nove quesitos: alegorias e adereços, bateria, fantasia, samba-enredo, comissão de frente, evolução, harmonia, mestre-sala e porta-bandeira e enredo. O cantor Neguinho da Beija-Flor, principal intérprete da escola de Nilópolis, na região metropolitana do Rio, disse que a crítica social foi o destaque do desfile do carnaval 2018.

“O mundo hoje é outro e a Beija-Flor e o Carnaval precisam se modernizar”, diz Gabriel, o empresário, de 20 anos, comandou o desfile apoteótico da agremiação de Nilópolis. Além de conselheiro da Beija-Flor, é um dos sócios do “Nosso Camarote”, parceria com a promoter Carol Sampaio e o jogador Ronaldo Nazário. Gabriel é filho mais velho de Fabíola Oliveira, segunda mulher de Anísio, presidente da escola.

Gabriel é o típico menino da Zona Sul carioca. Estudou na The British School, reduto da elite carioca, e cursa o quinto período de administração na PUC. Adepto dos esportes,gosta de lutas como muay thai, jiu-jítsu e boxe e ainda pratica snowboard em suas viagens internacionais. Segundo os amigos, não fuma, bebe apenas socialmente e tem aversão a drogas. Seu endereço é a opulenta cobertura tríplex localizada na Avenida Atlântica que pertenceu a Roberto Marinho, onde mora com os pais.

A Beija-Flor completa 70 anos agora em 2018 e sempre se superou nos quesitos luxo e imponência, na avenida do samba. Neste ano fez um desfile atípico mostrando os "monstros nacionais": a corrupção, as agressões à natureza, o uso indevido de impostos, as disparidades sociais. Foram retratados favelas com traficantes "armados", brigas de casal e até uma mãe velando um filho policial morto. Até a chamada "farra dos guardanapos", episódio do esquema de corrupção do ex-governador do Rio Sérgio Cabral (MDB), foi encenada.

Componentes vestidos de pastores evangélicos, católicos e muçulmanos se juntaram contra a intolerância religiosa. Pabllo Vittar foi destaque no carro anti-LGBTfobia. No geral, a plateia comprou o discurso de indignação da escola da Baixada Fluminense, que encerrou sua passagem com a simulação de uma passeata popular, seguida pelo público saído de frisas e camarotes.

O coreógrafo da comissão de frente da Beija-Flor, Marcelo Misailidis, disse que a vitória da escola foi "a vitória da arte". "De certa forma, é uma vitória da arte e de uma coisa importante, que luxo não é botar pluma, é dar voz para ao povo, a cultura. Resgatar a dignidade deste País", afirmou em entrevista após a apuração.

Nesta quarta de cinzas aconteceu a tão esperada apuração do carnaval carioca 2018. E para surpresa de muitos, a Paraíso do Tuiuti, escola de São Cristóvão, foi consagrada vice-campeã. A escola de samba perdeu por um décimo para a Beija-Flor , considerada uma das maiores campeãs da Sapucaí.

A Paraíso do Tuiuti chegou ao grupo de elite das escolas de samba do Rio em 2017, após vencer a segunda divisão em 2016. A escola defendeu na avenida que a escravidão no Brasil ainda não acabou, apenas mudou de forma. O enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão? ”, composto por Claudio Russo, Moacyr Luz, Dona Zezé, Jurandir e Aníbal, levantou a arquibancada da Sapucaí. O carnavalesco Jack Vasconcelos partiu dos navios negreiros do século 16 e chegou ao "cativeiro social" dos dias de hoje, marcado por desigualdades sociais e precarização do trabalho. As últimas alas e o último carro alegórico, bastante aplaudidos, faziam críticas à reforma trabalhista.

A Tuiuti, escola de São Cristóvão, também retratou o efeito devastador da crise política para o país. Um dos últimos carros alegóricos trazia um vampiro com faixa presidencial rodeado de dinheiro no topo do carro, juntamente com mãos gigantes manipulando figurantes com a camisa da seleção brasileira batendo panelas chamados de Manifestoches, referindo-se aos manifestantes que defenderam o impeachment de Dilma Rousseff.

“A escola fez uma crítica que está entalada na goela do brasileiro. Os empresários e governantes sempre ficam fazendo o povo de escravo. Mas nós estamos felizes com o segundo lugar por mostrar para o mundo que não somos escravos. A bateria não foi o que esperávamos ainda. Mas a gente ainda não está pensando no ano que vem, agora é comemorar”, afirmou Mestre Ricardinho, um dos diretores da bateria da Tuiuti.

O fato da Paraíso do Tuiuti , uma escola de samba com pouco patrocínio do grupo especial, ter chegado tão longe na disputa pelo título impressionou telespectadores, internautas e veículos de comunicação do Brasil inteiro pelo samba-enredo, a determinação para construir as fantasias e com certeza a aproximação das críticas sociais feitas com o dia a dia do público.

A aproximação foi tanta que a Tuiuti ficou no trending topic em algumas redes sociais. No entanto, mesmo com tanto contato entre escola e público, poucos acreditavam no potencial da confraria. No Facebook internautas enalteceram e torceram pela escola:"Tuiuti fazendo história com o carnaval politizado, sabemos que será boicotada mas fez bonito na avenida, na torcida!", afirmou um. "Tuiuti melhor escola", disse outro.

O tom de protesto da escola, que tomou conta do sambódromo e das redes sociais, também chegou a cerimônia de apuração. Enquanto as notas das escolas de samba eram lidas pelo locutor da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), com transmissão ao vivo na TV, foram entoados, algumas vezes, gritos de "Fora, Temer". O Carnaval de 2018 recuperou o espírito crítico com políticos e medidas de governo.

Além da Beija-Flor, Paraíso do Tuiuti, Salgueiro, Portela e Mangueira, nesta ordem de classificação, voltam a desfilar no fim de semana no desfile das campeãs. Grande Rio e Império Serrano foram rebaixadas.

 
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