Coluna Bernadete Alves - dia 24/01/2018

Bordado Filé, expressões dos saberes de muitas gerações

O filé é considerado uma técnica de bordado europeu, difundida de geração a geração na região do complexo lagunar Mundaú-Manguaba, abrangendo os municípios de Maceió e Marechal Deodoro, em Alagoas. O nome filé vem do francês “filet” que quer dizer rede e, de fato, é um bordado sobre uma rede de fios. Fios sobre fios que envolvem processos de execução complexa e muito aperfeiçoamento através desse longo tempo histórico de repasses dos saberes entre gerações, povos e países.

Segundo registros históricos, os egípcios e persas criaram e difundiram a técnica de confecção do filé pelo mundo, nesses últimos séculos, sendo encontrado em localidades de Minho, em Portugal e Pistoia, na Itália. Foi trazido para o Brasil, na época da colonização, pelos portugueses.

No nosso território costeiro a técnica cruzou com a arte de tecer a palha e de construir instrumentos de pesca e outros utensílios com as fibras vegetais da cultura indígena. Com o estabelecimento do ensino em escolas indígenas, muitos ofícios foram praticados, especialmente entre as mulheres, o que incluiu as rendas e os bordados. Dessa mistura de gente e de suas técnicas de trabalho, formou-se, ao longo da história, a cultura do bordado filé.

O artesanato do filé teve início em Alagoas e, tradicionalmente, foi aprendido pelas mulheres dos pescadores. Elas, por uma questão cultural, não podiam trabalhar fora, e encontraram no filé, confeccionados em teares feitos com madeira retirada dos manguezais, uma nova fonte de renda.

É construído a partir de uma rede denominada malha, com espaçamento pequeno, que serve de suporte para a execução do bordado. O trabalho é realizado em duas etapas: a construção da rede e o preenchimento de pontos sobre a rede. Para sua execução são utilizados instrumentos artesanais: agulha em madeira e molde de bambu para tecer a malha, telas em madeira sob diversos tamanhos para a esticagem da malha e ainda, a confecção de goma de amido de milho para finalização dos produtos. A variedade de pontos e complexidade de execução dos pontos entre si, além do intenso colorido, confere ao bordado desse território características singulares de outros executados com a mesma técnica. Mas é preciso empenho para a obtenção desses resultados. Há artesãs que só preenchem e outras que marcam e preenchem. Outras, por seu turno, que só fazem a rede. Uma cadeia produtiva do bordado Filé.

Devido a sua importância histórica, o Bordado Filé foi registrado como patrimônio imaterial alagoano em 2011. Patrimônio Cultural Imaterial é uma concepção que abrange as expressões culturais e as tradições que um grupo de indivíduos preserva em homenagem à sua ancestralidade, para as gerações futuras. Como exemplos de patrimônio imaterial podem-se citar os saberes, os modos de fazer, as formas de expressão, celebrações, as festas e danças populares, lendas, músicas, costumes e outras tradições.

Mais que um bordado, o filé representa a cultura e história de comunidades do Estado de Alagoas, e está presente no vestuário, em toalhas, colchas e outros artigos de decoração, destacando-se, até, no cenário da moda nacional.

 
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