Coluna Bernadete Alves - dia 02/08/2017

Vacas podem ajudar na cura do HIV dizem cientistas americanos

Pesquisadores dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA descobriram que o organismo do gado bovino é capaz de criar anticorpos amplamente neutralizantes contra o vírus entre 35 e 50 dias após contato com antígenos do HIV. O estudo foi publicado no mês de julho na revista “Nature”. Esta importante descoberta pode ajudar no desenvolvimento de vacinas contra a Aids.

O surgimento do HIV em 1980 foi uma das maiores epidemias mundiais e deixou milhões de vítimas, principalmente por ser desconhecido pela população civil e médica e pela falta de informação. Desde então, a busca pela cura foi iniciada e continua até hoje.

O HIV, mesmo controlado, ainda assombra as sociedades de países mais pobres e continua como a segunda doença infecciosa que mais mata no mundo, com mais de 25 milhões de vítimas e outras 40 milhões de pessoas vivendo com a infecção.

Mesmo com os avanços da medicina, ainda não foi possível encontrar um caminho capaz de indicar a cura. Ou pelo menos não havia sido, até que os cientistas começaram a estudar as vacas. Eles descobriram que o organismo bovino é capaz de neutralizar quase todo o vírus em apenas um ano, enquanto o sistema imunológico humano leva de três a cinco anos para começar o processo de produção de anticorpos.

O estudo feito pela International Incident Vaccine Initiativa e pelo Scripps Research Institute, concluiu que o organismo desses animais tem capacidade de neutralizar as cepas do vírus.Para chegar a esta conclusão os pesquisadores isolaram os anticorpos dos animais para estudar as propriedades. Injetaram em quatro vacas um tipo de proteína do HIV para analisar o comportamento dos animais. Um dos anticorpos se mostrou bastante potente. Batizado como NC-Cow 1, ele neutralizou cerca de dois terços das cepas do vírus testado. Verificaram que em 42 dias, as vacas foram capazes de neutralizar 20% das células virais. Em um ano, 96% das cepas foram anuladas. Isso aconteceu porque o organismo bovino possui características únicas, diferente do humano, que varia muito de pessoa para pessoa.

Os pesquisadores ficaram surpresos com o resultado impressionante. Isso porque ao ser comparado ao sistema imunológico humano, que leva de 3 a 5 anos para iniciar o processo de produção de anticorpos, as vacas conseguiram um desempenho muito mais rápido e eficiente.

“Apesar de ninguém saber exatamente por que esses poderosos anticorpos se desenvolveram nas vacas, uma teoria sugere que a característica esteja relacionada com o sistema digestivo ruminante”, diz o pesquisador Dennis Burton, do The Scripps Research Institute. O coautor do estudo explica que o gado bovino e outros animais possuem estômagos divididos em várias cavidades com uma robusta população de bactérias.”Para conter as possíveis infecções por esses micro-organismos, elas possuem um mecanismo versátil de produção de anticorpos”, declara Dennis.

“Desde os primeiros dias da epidemia, nós reconhecemos que o HIV é muito bom em enganar a imunidade, então, sistemas imunológicos excepcionais que produzem naturalmente anticorpos amplamente neutralizantes para o HIV são de grande interesse, eles de humanos ou de gado”, declarou Anthony S. Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, dos Institutos de Saúde dos EUA.

O pesquisador Devin Sok, coautor da descoberta, disse que embora o HIV seja um vírus humano, a descoberta traz elementos para conhecer o sistema imunológico de outros animais. “O HIV possui características diferentes de pessoa para pessoa, mudando quase drasticamente de uma região para outra. Assim, criar uma vacina única pode ser uma grande dificuldade. Já o sistema imunológico bovino possui características únicas, que o torna um importante aliado no combate à Aids. A ideia é entender como esse sistema age tão rapidamente contra o HIV e fazer com que o dos seres humanos também tenha essa propriedade e passe a agir o mais rápido possível”, declara Devin.

A descoberta ainda representa um pequeno passo para o caminho da cura . Agora, a ideia é que os cientistas entendam como o sistema bovino age e porque a eliminação do vírus é tão rápida para poder estimular o organismo humano a trabalhar da mesma maneira.

Este estudo foi apresentado na nona edição da Conferência de Investigação sobre o HIV, organizada pela Sociedade Internacional contra a Aids em Paris. O encontro chamou atenção para duas análises, sendo uma deles capaz de constatar que os pacientes que fazem o tratamento da doença utilizando comprimidos diários poderão conseguir o mesmo resultado tomando apenas uma injeção mensal de antirretroviral.

Durante a reunião em Paris foi apresentado o caso de uma criança, infectada pelo vírus desde o nascimento, que, como parte de um experimento, foi medicada no primeiro ano de vida e depois ficou 8 anos sem receber o tratamento e hoje encontra-se livre do vírus. Um caso raro que ainda está sendo estudado.“É um caso que mais provoca perguntas do que necessariamente responde”, disse Linda-Gail Bekker, presidente da Sociedade Internacional da Aids.

 
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