Coluna Bernadete Alves - dia 31/07/2017

A Era Digital e os impactos na educação Infanto-juvenil

O dinamismo e a rapidez na propagação da informação tornaram a internet o meio de comunicação mais eficiente da atualidade. O mundo virtual é muito ágil e mudou os paradigmas da comunicação e também a vida das pessoas. As ações e os costumes foram modificados; novas terminologias incorporadas ao vocabulário. As mutações digitais atingiram não só os adultos como as crianças e adolescentes.

A repercussão das mídias sociais entre os internautas e o público consumidor vem crescendo demasiadamente ao longo dos tempos. As crianças se familiarizam com as ferramentas digitais antes mesmo de dominar a linguagem verbal. Não é raro vê-las mexendo em joguinhos nos celulares dos pais ou nos tablets e, muitas vezes, de forma muito mais ágil que um adulto.

Para evitar casos assim, a maior parte das redes sociais estabelece uma idade mínima para o usuário. Está nas regras do Facebook: “você não deve usar o Facebook se for menor de 13 anos”. O mesmo vale para Instagram, Pinterest, Snapchat e Twitter. No YouTube, crianças podem assistir, mas apenas adolescentes a partir de 13 anos podem criar um canal. O WhatsApp define limite maior: 16 anos.

O interessante é que a maioria dos pais e responsáveis pelas crianças desconhece estes limites estabelecidos pelas redes sociais. Isso não acontece só em Brasília, é um fenômeno global. No Brasil, segundo o estudo da Officina Sophia, ao menos 62% das crianças entre 7 e 12 anos acessam uma rede social. Espontaneamente, mencionaram Facebook, WhatsApp, YouTube, Twitter e Snapchat.

Sabemos que a curiosidade infantil é natural e saudável. Mas os pais devem acompanhar as descobertas e atitudes dos filhos e dar limites. Desde cedo as pessoas precisam saber o que pode e o que não deve postar nos ambientes virtuais.

Frequentemente tenho presenciado pais em locais públicos deslumbrados com a tecnologia sem se importar com o exemplo que estão dando aos filhos. Alguns pais receiam que os filhos possam se tornar inocentes e atrasados, se não se conectarem e por isso liberam as redes sociais. Outros expõem seus filhos de forma exagerada nas redes sociais. Alguns me disseram que não veem problemas em publicar imagens dos filhos com roupas de banho ou de roupas de dormir. Para eles tudo é motivo para compartilhar.

O problema não está só em casa. O assédio virtual está em todos os lugares.

Eu considero as redes sociais como uma atividade de risco porque a criança não consegue interagir sozinha com estranhos e com o mundo. E aí pergunto: onde fica o direito à imagem e à reserva da vida privada da criança? A falta de discernimento de alguns responsáveis chega a extremos e isso preocupa.

Não questiono os benefícios oferecidos pela tecnologia. Mas seus eventuais efeitos colaterais exigem avaliação. As vantagens do uso das tecnologias de informação, especialmente da internet, vêm acompanhados de prejuízos para a saúde física, psíquica, para a cognição, para as questões de relacionamento familiar e de segurança do usuário, principalmente em se tratando de crianças e adolescentes.

A era digital tem excesso de conteúdo e só um adulto sabe filtrar e não cair no erro de abraçar uma verdade que não é absoluta.

Diante desse mundo repleto de possibilidades, descobertas, autonomia, diversão e interação surge o questionamento: o mundo online está afastando ou aproximando crianças e jovens do convívio real? Sobre este assunto temos dois artigos que representam as duas faces de uma mesma moeda.

O pediatra Getúlio Bernardo Morato Filho, docente do Curso de Medicina da Escola Superior de Ciências da Saúde do Distrito Federal, acredita que as novas tecnologias facilitam a comunicação e a informação. A tecnologia não é um problema, e sim como a pessoa a utiliza. Vejamos:

Novas tecnologias: facilidade de comunicação e informação

As novas tecnologias certamente revolucionaram o mundo com sua agilidade, grande quantidade de informação e poder de comunicação. Nesse sentido, o uso do computador, de tablets, de celulares e, consequentemente, da internet tem se tornado cada vez mais comum entre crianças e jovens, mas não há mal nisso.

Dos 6 aos 12 anos, jogos e brincadeiras interativas são os chamarizes. Além disso, há bastante interesse dessa faixa etária em vídeos e desenhos animados. Crianças e jovens também usam a internet para conversar com amigos e familiares, podendo estreitar laços com tios ou primos que não veem sempre, por exemplo.

Outra facilidade que os avanços tecnológicos permitem está relacionada a pesquisas de imagens e conteúdo em geral para trabalhos escolares. Atualmente, não é mais imprescindível comprar enciclopédias ou correr para a biblioteca cada vez que realizam pesquisas. Entretanto, a internet não substitui os livros, mas facilita a busca de informações.

A internet também é um excelente meio de divertimento para todas as idades, pois possibilita que pessoas se reúnam em torno de um mesmo jogo. Com ela, é possível aprender a dançar, jogar tênis e outros esportes. Assim, crianças e jovens tímidos acabam interagindo mais com os colegas.

No entanto, o controle sobre o uso da internet é importante. Proibir o uso jamais. A tecnologia não é um problema, e sim como a pessoa a utiliza. É necessário estabelecer um momento em que garotada deixe de lado celulares, tablets e computador para brincar ao ar livre, fazer as refeições, ler e conversar face a face.

Em suma, a família deve ser a principal construtora de um comportamento saudável no uso da tecnologia, mantendo em casa regras e conversas a respeito do uso correto da rede, seguida pela escola, que também tem a função de educar nesse sentido, já que é grande incentivadora de seu uso.

(Por Dr. Getúlio Bernardo Morato Filho)

Já a psicóloga Denise Aragão, formada pelo UniCEUB, com especialização em Psicologia Clínica Infantil na PUCRS e com trabalhos no D.W Winnicott Comunidade Terapêutica, Porto Alegre-RS, acredita que mesmo que o mundo sem internet pareça impossível é preciso usá-la com limitação para evitar o estresse digital e a depressão. Vejamos:

Novas tecnologias: cuidado para não virar vício!

A internet e as tecnologias associadas a ela fazem parte do cotidiano atual de crianças e jovens, pois são instrumentos de pesquisa, conhecimento e lazer. No entanto, como o controle em relação ao tempo de uso é praticamente impossível, estão causando inúmeros problemas.

Esse é um tema muito relevante, pois já é possível perceber sintomas de vício em eletrônicos nos jovens e até nas crianças, como, por exemplo: o isolamento, o afastamento de brincadeiras e atividade ao ar livre, a queda do rendimento escolar, a irritabilidade, a agressividade, a necessidade de passar um tempo cada vez maior conectado e a angústia quando são impedidos.

Além disso, o costume de jogarem ou conversarem nas redes sociais antes de irem para a cama está adiando o horário dessa turma ir dormir. Eles deveriam dormir por voltas das 21h30, três horas depois que escurece. Quem adia esse momento está mais exposto ao vício e à insônia.

Outro ponto importante é o de que, como deixam de fazer exercícios físicos, é comum o ganho de peso, a obesidade e até a hipertensão precoce. Também já é possível observar problemas psicológicos. Durante a infância e a juventude, atividades variadas são indispensáveis para a formação psíquica indivíduo. Por ser um ambiente muito atrativo, a internet pode gerar o desinteresse pela vida real e, muitas vezes, sua substituição pela vida virtual. Os efeitos dessa dependência vão da irritabilidade à alienação social, uma vez que a vida familiar, escolar e pessoal é prejudicada. Portanto, em vez de a tecnologia facilitar e ampliar os meios para se adquirir informações e o círculo de amizades, muitas crianças e jovens nunca estiveram tão desconectados do mundo real. Parecem hipnotizados por seus celulares e tablets, perdendo a vontade de estudar, de brincar ao ar livre e até de conversar entre si e com seus familiares.

(Por Dra.Denise Aragão)

Nos artigos observamos que os dois profissionais estão preocupados com o desenvolvimento das crianças e chamam à atenção para o uso excessivo da ferramenta. Eles estão certos porque tanto as crianças quanto os adolescentes são prioridade absoluta de proteção. Segundo as normativas internacionais e nacionais, é necessário desenvolver ações de prevenção ao uso compulsivo da internet, já constatado pelos especialistas como transtorno de impulso enquanto dependência comportamental.

A proteção e a garantia de direitos das crianças e dos adolescentes na era digital é uma das principais preocupações da Rede de Proteção, porque é crescente o número de ‘usuários compulsivos da internet na infância e na adolescência’. As autoridades de saúde chamam à atenção para o fato da criança e do adolescente usarem a internet de forma desmedida em tempo, conteúdo e forma de acesso. Principalmente quando esse uso ocorre em detrimento a brincadeiras ao ar livre, práticas esportivas, atividades artísticas, manuais e contatos com animais de estimação.

Pesquisas científicas em universidades de todo o mundo têm evidenciado a relação entre o uso compulsivo da internet, igualmente ao uso compulsivo de jogos eletrônicos e de redes sociais, com diversas implicações humanas: o déficit de atenção, o isolamento, a diminuição da capacidade de memorização, a dificuldade de concentração, a precocidade no desenvolvimento da sexualidade na infância, entre outros problemas que comprometem o desenvolvimento saudável.

O Marco Civil da Internet estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da internet no Brasil. O controle parental é determinante e foi estabelecido no Art. 29º da Lei nº 12.965 de 2014, que mostra que os cuidados diversos em relação ao uso da internet são essenciais para preservar a integridade da criança e do adolescente. O Parágrafo único do Art. 29 diz: “cabe ao poder público, em conjunto com os provedores de conexão e de aplicações de internet e a sociedade civil, promover a educação e fornecer informações sobre o uso dos programas de computador, bem como para a definição de boas práticas para a inclusão digital de crianças e adolescentes”. E o Art. 7º, inciso XII, prescreve que “a acessibilidade da internet deve ocorrer consideradas as características físico-motoras, perceptivas, sensoriais, intelectuais e mentais do usuário, nos termos da lei”.

O Marco Civil da Internet reafirma que a família, a escola, o Estado e toda a sociedade têm o dever de garantir a proteção integral das crianças e dos adolescentes também na era digital, considerando principalmente a fase especial de desenvolvimento biopsicossocial em que se encontram.

O mundo virtual mudou a forma de ser das pessoas. A internet é uma importante ferramenta de comunicação, mas deve ser usada com limite e responsabilidade.

 
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