Record lança biografia de José Junior, criador do AfroReggae

Por Carlos Andreazza *

Esta não poderia ser uma biografia comum. Luis Erlanger e José Junior são duas das melhores – das mais criativas – cabeças do Brasil. Ao reuni-los, No fio da navalha garantiu para si, antes de sequer iniciado, tanto a excelência quanto a ousadia. Agora, pronto, prestes a ganhar o mundo, ainda assim o livro supera a grande expectativa que mobilizou; e o faz ao combinar, entre outras qualidades, duas raras capacidades na era da covardia: a de enfrentar e a de surpreender.

Falo aqui de forma e conteúdo; porque não me lembro de uma biografia que explorasse o manejo do tempo – indo e vindo muitas vezes, apurando-se, refletindo, completando-se – para provocar o biografado, Junior, a se colocar e recolocar, ver-se e rever-se na trama de sua própria história. É arriscado. Inquieto. Sacana. Esplêndido. Campo perfeito para que uma personalidade tão complexa como a de Junior – cuja habilidade de se relacionar positiva e amplamente não tem igual – fosse esmiuçada: ou não será muito representativo que este livro reúna Armínio Fraga (texto de quarta-capa), Falcão (orelha) e Zuenir Ventura (prefácio)?

(Para alguém como eu, que tinha contra Junior o preconceito dos que desconfiam daqueles que trabalham por retirar bandidos do crime, e que considerava que isso só poderia ser um serviço – uma espécie de lavagem de identidade – para as organizações criminosas, a leitura deste livro ainda tem a componente pedagógica: eu me eduquei, ainda que tardiamente, ao compreender e respeitar a cultura da mediação em situações extremas, sem a qual, nas favelas, só restará a barbárie.)

O recurso que Erlanger emprega para costurar as camadas desse relato – em que ele, o biógrafo, mais do que narrar, engaja Junior numa conversa franca, corajosa, da qual é impossível descolar-se até o fim da leitura – resulta numa rara espécie de thriller. Um jogo em que o diálogo – eletrizante – impõe-se e ilumina. Nada fica de fora. Nem polícia nem bandido. Tudo é tratado de peito aberto: a criação do AfroReggae e a luta para sustenta-lo e fazê-lo crescer, o trânsito delicado entre as facções criminosas e seus líderes, as ameaças de morte, as brigas públicas (e as privadas), a ocupação do Alemão, as relações com os poderosos e com a imprensa. Aos poucos, sem frescuras politicamente corretas, as fronteiras do bem e do mal são postas em xeque por quem as conhece desde moleque. E há alguns – vários – furos de reportagem. E muitos bastidores. São 280 páginas (a 220 volts) de uma troca poderosa, em que biografado e biógrafo se expõem, e em que há desafio, violência, tensão, política (e muitos políticos), dor, saudade, amor, traição – carga dramática.

José Junior não poupa. Não se poupa. Luis Erlanger tampouco. É a vida de um, mas é também a história da cidade, do estado, do país do outro – de todos nós – nos últimos (pelo menos) 20 anos. Um livro impactante, cujas polêmicas decorrem organicamente do compromisso com a verdade, e que não à toa chega num momento em que Rio de Janeiro e Brasil debatem-se no avesso da pacificação.

*Editor-executivo de ficção e não-ficção da Record

 

ORELHA

Por Falcão

Poucas pessoas têm a sapiência e a tranquilidade de ver o tempo como um amigo. O personagem deste livro tem. E foi sutilmente se aprimorando, reunindo ao seu lado figuras importantes e especiais para um momento histórico e social prestes a acontecer no Rio de Janeiro. E, quando chegasse esse momento, um coletivo de amigos e ideias poderia transformar sonho em realidade. Tudo com organização, disciplina, estudos, e com alta dose de cautela e coragem, pois falamos de Vigário Geral e Parada de Lucas, território de uma guerra pesada que fazia os moradores e os jovens da época escolherem ou a barbárie ou a vontade de mudar. Custasse o que custasse, tudo de cabeça erguida, porém com muitos desenroles, muitas conversas. Maneira certa de entrar e sair de uma situação.

Depois de muito papo, era necessário mostrar aos dois lados que, após a chacina mundialmente conhecida, deveria, ali na Faixa de Gaza carioca, ocorrer uma revolução cultural que erguesse uma nova cara às comunidades do Rio.E eis que, graças a Deus, surgem, nesse momento, amigos, algumas bandas – e surge o AfroReggae.

Waly Salomão, um mestre para todos nós, em vários sentidos, estava ali, respirando poesia, respirando tudo o que acontecia naquele momento. Ele e José Junior, um discípulo, um aglutinador, um elevador de autoestima dos jovens.Poucos de sua geração, poucos mesmo, tinham a grande capacidade de organizar, de fazer acontecer e conquistar naturalmente. Ele possuía um talento para liderança, um talento para contatos, e tinha comprometimento com a molecada. E fez suas próprias escolhas, com o propósito de salvar, de dar esperança a vidas descartadas pelo poder público e pelos olhares de quem duvidava que dali, de Vigário ou de qualquer comunidade, sairia um dos mais brilhantes trabalhos sociais do mundo.

Uma instituição do bem e dos sonhos dentro das comunidades. Uma instituição escolhida, pelos não escolhidos, como o lugar onde é possível todos os dias fazer com que sonhos se transformem em realidade.

Eu me sinto muito orgulhoso, junto com a banda da qual faço parte, O Rappa, em ter Junior como parceiro. Um cara que merece todo nosso respeito, pois abriu mão da sua liberdade, abriu mão de muitas coisas para que jovens da periferia carioca pudessem com orgulho ir atrás dos seus ideais e almejar um futuro. 

 

PREFÁCIO

Por Zuenir Ventura

Como praticamente acompanhei o nascimento e o crescimento do AfroReggae, achava que conhecia tudo de seu fundador, o Junior. Agora, com este livro, descobri o quanto faltava conhecer desse personagem quando jovem, época em que confessa ter vivido “o episódio mais marcante” de sua vida, aos 12 anos. Marrento, briguento, metido em muitas confusões, José Junior poderia ter sido um marginal. Como consequência do que aprontava, ele mesmo conta: “Fiquei detido em todas as delegacias do Centro, da Tijuca, da Praça da Bandeira e da Zona Sul.”

Mas, a exemplo de agora, não bebia, não fumava, não cheirava e nunca usou arma. E, ao contrário de Tim Maia, não mente ao dizer isso, até porque é capaz de confissões mais politicamente incorretas. Admite, por exemplo, que, “em pensamento”, chega a desejar a morte dos inimigos, que ele os tem em razoável quantidade — do lado do bem e do mal.

Uma de suas qualidades como “mediador de conflitos” é a franqueza, que usa inclusive com traficantes: “Você vende drogas para crianças e tenho que entender? Você fode a vida dos outros e tenho que entender?” E não só com bandidos é franco. Numa mesa-redonda para empresários, da qual participei com um policial e um ex-traficante, um dos presentes, meio impaciente, perguntou: “Sim, e quanto temos que dar?” A resposta de Junior foi: “O senhor não entendeu. Não quero seu dinheiro, o que eu quero é que o senhor...” — e deu uma lição de cidadania.

Quando o AfroReggae completou dez anos, fiz um texto lembrando a data de 30 de outubro de 1993, de minha primeira visita à favela, onde à noite assisti ao show Vigário in Concert Geral, o primeiro depois da chacina praticada por um grupo de policiais contra 21 moradores sem qualquer envolvimento com o tráfico. Era uma festa onde havia jovens, crianças e velhos. O único distúrbio foi promovido pela polícia, que apressou a saída do pessoal dando tiros para o alto. Escrevi então: “Não é fácil fazer o bem na favela. É como andar sobre um fio de navalha, tendo de um lado a violência do tráfico e do outro a da polícia.”

O fascínio juvenil pela aventura e pelo risco, a tentação do enriquecimento rápido e ilícito, o aceno sedutor das drogas, a “glória” efêmera e o poder das armas, tudo isso, aliado ao desemprego e à falta de perspectiva, funcionava como obstáculo a um trabalho de integração social. Em meio a esse caldo de cultura, como disputar com o narcotráfico os corações e mentes da juventude? Não conheço melhor resposta a essa angustiante pergunta do que a que tem sido dada pelo AfroReggae, que oferece como substitutos à viagem fugaz que leva ao inferno, fingindo estar levando ao paraíso, o prazer e a sedução pela arte, a oferta enfim de um caminho com futuro, segurança e possibilidade de sucesso.

É um trabalho de inclusão social, mas também um projeto de inserção cultural que já deu ao movimento mais de vinte prêmios nacionais e internacionais. Junior não se contenta em tirar da marginalidade e das zonas de risco os jovens a perigo. Ele quer lhes dar um emprego, uma profissão, fazer deles artistas competentes. Por isso é que, quando houve atentados contra instalações do projeto e ameaça de morte ao seu fundador, a sociedade carioca mobilizou-se de maneira impressionante consagrando a proposta do próprio Junior contra a segregação: “Todos juntos e misturados.”

 

QUARTA CAPA

Por Armínio Fraga

José Junior, o Junior do AfroReggae, é um desses heróis que a gente só imagina em filme: corajoso sonhador, com imensa capacidade de liderança e execução, ele vem promovendo uma revolução do bem em uma área do Rio de Janeiro considera impossível de resolver até sua chegada. Os resultados são notáveis, reconhecidos no Brasil e no exterior. A história do Junior, que chega em boa hora, merece ser lida por todos que buscam um raio de esperança.

 

SOBRE O AUTOR

Luis Erlanger nasceu em 1955, no Rio de Janeiro, e tem seis filhos. Começou como jornalista em OGlobo em 1974, com passagens pelas editorias de Cidade, Polícia, Esporte, Cultura e Política. Depois, em Brasília, esteve encarregado da cobertura de fatos relevantes no processo de redemocratização no Brasil – eleições, a morte do presidente Tancredo Neves, o Palácio do Planalto, a Constituinte de 1988, o impeachment do presidente Collor e os planos econômicos que mudaram o país. Após quatro anos como editor-chefe do jornal, em 1995, foi para a TV Globo, como diretor editorial de Jornalismo. Em 2000, assumiu a direção de Comunicação da TV. Em 2013, lançou seu primeiro romance, Antes que eu morra. Ainda em 2013, tornou-se diretor de Análise e Controle de Qualidade de Programação e após dois anos saiu da empresa para montar a Erlanger Comunicação & Arte (ECA) – escritório de prestação de serviços de consultoria, texto, projetos e produção nas áreas de Comunicação e Cultura. Também é produtor e escreve para teatro.

 

JOSÉ JUNIOR: NO FIO DA NAVALHA 

Luis Erlanger 

Não-ficção nacional

Biografia 

Páginas: 280

Preço: R$ 40,00 

Editora: Record / Grupo Editorial Record  

 

Informação: Imprensa Grupo Editorial Record

 

 
RocketTheme Joomla Templates