Nathaje: voz e coração
Entrevista com NATHAJE.
 
 
  

No mundo há aqueles que trabalham por dinheiro e os que o fazem por amor. A cantora e compositora Nathaje faz parte do segundo grupo. É o amor pela música que move essa talentosa artista. Ela escreve sobre o que sente, sobre o que pensa, sobre as angústias e sonhos, sobre as relações entre as pessoas e delas com elas mesmas. Filha de cantor tem a música como parte essencial de sua vida. Aulas de canto, teatro, guitarra e piano sempre fizeram parte de sua rotina. Hoje, arquiteta formada pela UNICAMP, nos presenteia com músicas autorais de alta qualidade que podem ser conferidas em seu canal no YouTube. O repórter Gilbert Di Angellis conversou com Nathaje sobre vida, carreira, planos e outras coisas mais. Confira!
 
 
 
 
Como a música surgiu na sua vida?
 
A música está sempre na vida de todos, não? É essa a impressão que eu tinha... mas na realidade hoje eu compreendo que essa sensação tem a ver com a minha criação, com um pai que foi cantor sertanejo nos anos 70. Ele chegou a gravar por grandes gravadoras na época. Quando nasci ele já tinha largado a carreira há anos, mas cresci com um violão ao meu lado. Só fui aprender a tocar quando tinha 14 anos, mas sempre ouvi meu pai tocar e cantar. Aprendi a fazer "segunda voz" tão pequena que eu nem saberia te dizer com quantos anos. A primeira vez que me apresentei cantando pra uma plateia foi aos 7 anos, na minha escola, a convite do professor de música. Era pra ser um solo, mas minha voz era tão suave, sem projeção nenhuma, que acabou sendo um trio. A partir dali adquiri um trauma que carreguei por muito tempo: de que minha voz era muito "fraquinha".

Aos 8 comecei piano. Aos 9 comecei também com as aulas de teatro. Aos 11 fui convidada pelo meu segundo professor de canto, da própria escola de teatro, a fazer um solo em um musical. Continuei com o teatro, o piano e o canto por uns anos e aos 14 troquei o piano pela guitarra. Cheguei a pensar em ser atriz! Mas a música foi ganhando um espaço maior na minha vida. 

Foi então que eu, aos 16 anos, entrei pra uma banda pra fazer segunda voz e tocar meia lua! rs... Saí da banda quando fui morar nos Estados Unidos por um semestre, e na escola de lá fiz aula de coral. Novamente fui convidada por um professor pra fazer um solo. Aí eu comecei a pensar: talvez não faça muita diferença eu ter a voz fraquinha. Depois aos 17, voltando dos EUA, comecei a tocar com um amigo que me acompanha até hoje, o Max Fagundes, que toca o violão de um jeito maravilhoso. A gente só tocava músicas do John Mayer no comecinho! Depois fomos expandindo o repertório e minha irmã falou: vocês vão ficar quantos anos tocando só aqui em casa? E nos intimou a tocar no restaurante da minha família. A partir daí começamos a nos apresentar em bares, voz e violão. Também fizemos apresentações com banda. 

Nessa mesma época, em 2007, em uma conversa no jardim meu pai falou: "eu sempre pensei que uma de vocês duas pudesse se tornar cantora, e agora eu vejo as duas seguindo outros caminhos! Mas eu estava aqui pensando, será que uma de vocês duas não querem gravar um álbum?". Então fomos conversar com meu segundo professor de guitarra, Marcelo Modesto que inclusive já brincava comigo há um tempo: "Nathaje Maria (não, eu não tenho Maria como segundo nome), quando é que você vai se tornar uma artista?". Ele nos apresentou alguns compositores, mas eu pensava: não... Não é isso. Se for pra ser algo que eu não sinto que é meu, que eu não me identifique, prefiro não gravar. Meu professor me disse que eu mesma devia compor. "Você faz Unicamp, menina, deve escrever super bem!" E aquilo ficou na minha cabeça, mas eu pensava que não, que eu não saberia nem por onde começar. 

Um tempo passou e em meados de 2008 eu tinha feito uma música. Minha primeira. Não foi tentando fazer uma música que ela surgiu. Foi brincando com o violão e escrevendo uma carta. Dois momentos diferentes que quando eu juntei eu pensei: caramba... Fiz uma música. Mostrei pra minha família e eles ficaram tão descrentes que me perguntavam: mas de quem é? Parece que eu já conheço essa música!  Você tem certeza que não é plágio? Meu pai pediu que eu gravasse no computador e entregasse um CD pra ele ouvir no carro. Eu fiz isso de um jeito bem precário. Entreguei pra ele e um mês depois ele me chamou pra dar uma volta de carro pra conversar. De repente chegamos na escola e estúdio do Modesto. Eu entro na sala de gravação e ele coloca um arranjo pra tocar. Até então eu estava apenas muito confusa. Comecei a ouvir aquela introdução e pensei: nossa que coisa bonita! Começou o verso, apenas o arranjo, meus olhos se encheram de lágrimas e eu notei. Minha música. Minha primeira música.

A partir da minha primeira composição a música se tornou outra coisa pra mim. A minha maneira de me expressar. Meu refúgio. Minha válvula de escape. Meu ponto de conexão mais profundo com as outras pessoas.


O que te inspira na hora de compor e cantar uma música?

Me inspiro em situações que acontecem comigo e com pessoas ao meu redor. Eu sempre gostei de me expressar com palavras. Escrever me ajuda a entender o mundo, a compreender uma situação que acontece comigo ou com os outros. Coloca as coisas em perspectiva. Me ajuda a encarar alguns sentimentos de frente ao invés de fingir que eles não existem. Compreender o comportamento humano sempre me instigou. Eu gosto de pensar que minhas músicas podem de alguma forma ajudar as pessoas a se relacionarem. Até mesmo com elas mesmas. Nos compreender, nos sentir parte de algo muito maior, empatizar com algo que o outro está vivendo, nos ajuda a ser pessoas melhores. 

Quando eu canto, preciso me policiar para não me deixar levar muito pelo sentimento da música. Tive que parar diversas sessões de estúdio porque comecei a chorar! Haha... Até quando eu estou tocando alguma música em casa, se eu não desligar levemente da letra, eu acabo não conseguindo cantar direito porque dá um nó na garganta. Não me orgulho disso, até me incomoda um pouco, mas é algo que eu preciso aprender a lidar melhor. De qualquer forma prefiro isso do que cantar como se eu estivesse lavando louça ou fazendo qualquer outra coisa desconexa com o que a música quer dizer. Não gosto quando ouço algum artista e percebo que ele não está sentindo a música que ele está tocando e/ou cantando.


Você é arquiteta formada pela UNICAMP. O que te fez apostar na carreira musical?

Sempre gostei de aprender. Quando parei para escolher uma profissão, queria algo que me desafiasse. Gosto da formação de arquitetura. Ela é extensa, densa, multifacetada de uma forma única. Penso que o maior link entre as duas coisas na minha vida é o comportamento humano. Gosto de projetar pensando em como as pessoas utilizarão aquele espaço. Como o espaço as influenciará a conviver mais ou menos umas com as outras. Será um espaço de reflexão e introspecção ou de convívio e atividades diversas? 
 
Curiosamente foi durante uma aula de arquitetura que eu comecei a compor. Escrevi muitas letras durante as aulas. As vezes bolava até a melodia fazendo pontinhos no caderno, junto da letra da música, desenhando a sinuosidade que ela teria. Matava umas aulas pra ir pro estúdio gravar, outras pra tocar em algum bar... Tive muita sorte de ter tanto apoio da minha família. Foi isso que me permitiu fazer muito do que eu consegui fazer até hoje. Entre um estágio e outro de arquitetura eu ficava um tempo sem trabalhar pra conseguir tocar a música e a faculdade ao mesmo tempo, e eles sempre me incentivaram a continuar. 

Atrasei um ano de faculdade pra trabalhar na banda do programa Pânico na TV, a Banda Viva Noite. Mas eu precisava me formar. Por mim mesma. Saí da banda e terminei a faculdade numa imersão quase total na arquitetura. Eu até me afastei um pouco da música na época. O canal do youtube surgiu depois dessa fase como uma reconexão minha com a música. O Junior Carelli, pianista que eu conheci na Banda Viva Noite (e acaba de ganhar como melhor tecladista nacional em uma das revistas mais renomadas de música do brasil!) me ajudou muito na pré produção das minhas músicas, arranjos, e na produção dos vídeos do canal. Tenho muita sorte também de ser rodeada por amigos tão talentosos.

Apostar talvez não seja muito a palavra que eu utilizaria pra descrever o que aconteceu na minha vida. Apesar de a carreira musical ser tão incerta que as vezes realmente mais parece um jogo de azar, eu não sei se eu algum dia apostei nela. Eu falo que eu gosto de música, mas não necessariamente da carreira musical. A carreira, que envolve muito mais do que um amor pela música, tanto mais que as vezes parece que isso fica pra trás, não tem um apelo muito forte pra mim. A fama, por exemplo, nunca me encantou. Penso que é um efeito colateral de uma profissão que pode ou não ser muito prazerosa.  

Eu nunca vou largar a música. Mas também não sei se vou largar a arquitetura. Vamos deixar o tempo dizer.
 

Você tem trabalhos autorais de muita qualidade, como as canções “Desculpa” e “Vai Passar”, e canta músicas internacionais de outros artistas. Fale um pouco mais sobre o seu trabalho. 

Obrigada! Fico lisonjeada! Essas duas canções são extremamente pessoais, de dentro da minha casa mesmo. Compus, como a maioria das minhas músicas, no silêncio de uma madrugada, no meu quarto, sozinha. A "desculpa", por exemplo, começou com um capotraste posicionado na sexta casa e uma sequência de acordes que me fez pensar: essa música podia ter uma letra bem introspectiva. Um outro dia, após uma briga em família, eu cheguei no meu quarto pensando na situação e em como ela se resolveria mais tarde. Pensei na dificuldade que a gente tem as vezes em pedir desculpas. Parece que a pessoa fica tão distante da gente e que abrir a boca pra começar a falar é um esforço imenso. Aí comecei a escrever e acabei fazendo a letra e a melodia na mesma noite. Lembrei da sequência de acordes e pensei: essa é a letra dessa música. É essa a impressão que eu tenho as vezes. Quando a letra e a melodia encaixam, parece que a música sempre foi daquele jeito. Sempre existiu. Parece que eu já tinha feito a música e só não tinha me dado conta ainda. 

As músicas internacionais que eu canto de outros artistas, eu canto porque eu acho que tem muita gente sensacional por aí. Tem música que a gente queria ter sido o autor. Haha.. É muito gostoso fazer uma versão de uma música que gosta. Eu também componho em inglês, gosto da língua, da sonoridade dela. O estilo e técnica do canto em cada língua tem suas peculiaridades. Gosto da fluidez da música em inglês e do desafio de cantar composições de outras pessoas. Respeito meu alcance e estilo vocais, mas gosto de tentar ir um pouquinho mais longe de cada vez. Melhorar, aprender... sempre!
 
 
Quais são suas expectativas para esse ano de 2015?

Minhas expectativas!! Estou tentando não ter muitas pra esse ano. Minha vida pessoal está tão maluca que a vida profissional vai ter que encontrar um caminho por agora. Estou pra mudar de país, para a parte alemã da Suíça, então será um recomeço, uma adaptação a um novo cenário. Preciso conhecer a cena musical local e compreender como posso trabalhar a música de lá. A vantagem é que com tantos novos estímulos, a criatividade fica aguçada e costumam sair composições novas!




Entrevista: Gilbert Di Angellis. Entrevistada: Nathaje. Data: 20/02/2015
 
 
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