Crise diplomática na Crimeia
Escrito por Gilbert Di Angellis   

Entrevista com o mestre em Geografia MARCOS BRANDÃO.

 

A península da Crimeia atraiu os olhares dos diversos cantos do mundo após a intervenção russa no local. A região autônoma da Ucrânia pediu neste domingo anexação à Rússia após polêmico referendo. A maioria dos países que se posicionaram sobre o tema se mostraram contra as atitudes do presidente russo Vladimir Putin e pedem solução pacífica para o conflito. Convidamos o professor de Geografia Política Marcos Brandão para responder algumas perguntas sobre o assunto.

Marcos Bau Brandão é Mestre em Geografia pela UFBA, Especialista em Educação pela FBB, possui Curso de Extensão em Metodologias do Ensino da Geografia pela UNEB e também Curso de Extensão em Geopolítica e Relações Internacionais pela Escola de Altos Estudos Estratégicos e de Geopolítica/CENEGRI. Em Brasília é professor do Centro Educacional Sigma e d´O Diplomata, Curso de Admissão à Carreira de Diplomata pelo Instituto Rio Branco. É autor de um dos blogs mais respeitados de Geografia.

 

Aproximadamente 60% população da península da Crimeia é de origem russa. Quando o presidente Putin pediu ao Parlamento russo a aprovação do uso da força, alegou ser em “em conexão com a situação extraordinária na Ucrânia, a ameaça à vida dos cidadãos da Federação Russa, os nossos compatriotas", entre outros motivos. Esse lhe parece o motivo real da intervenção? 

Não, esse não é o real motivo interventor. Os russos possuem uma ligação histórica com a Crimeia desde o século XVIII, quando a conquistaram em uma guerra contra o Império Otomano. Em 1944, Stalin expulsou cerca de 300 mil tártaros que viviam na região. Em 1954, Krushev presenteou a Ucrânia com a Crimeia em comemoração aos 30 anos de unificação da URSS com a Ucrânia. Em 1991, após o colapso soviético, Boris Yeltsin permitiu que a Crimeia continuasse fazendo parte da Ucrânia, mas com a premissa de que permitisse que a Rússia mantivesse frota militar no porto de Sevastopol, situado no sul da Ucrânia. Portanto o envio de tropas russas para a Crimeia envolvem questões históricas e geopolíticas mais profundas que descrevo nas perguntas posteriores, e não apenas a defesa dos compatriotas russos moradores da citada península. Não que esse deixe de ser um dos fatores, mas não é o único nem é o principal/real motivo.

 

Vários países se manifestaram contra a intervenção russa na península da Crimeia. Como o sr. avalia a atuação internacional em busca de uma solução pacífica para o imbróglio?

Um conflito armado não é interessante para nenhum dos lados. A solução buscada está pautada na diplomacia e, no caso do aumento de tensões, nas sanções econômicas. A configuração demonstrada até o presente momento é de que Obama cedeu ao que a reunião entre os dois ministros das relações exteriores (EUA e Rússia) chamaram de “reformas constitucionais com o apoio da comunidade internacional”, quando Putin ameaçou anexar as províncias do sul e do leste da Ucrânia. 

 

Domingo (16) foi realizado referendo na Crimeia quanto à anexação da península à Rússia. Aproximadamente 97% dos eleitores se mostraram a favor dessa anexação. Qual é a legitimidade deste referendo? Como o sr. avalia este resultado?

Conforme a Constituição da Ucrânia, não há legitimidade e os países ocidentais também não reconhecem tal legitimidade. Fontes do ocidente acusam fraude na eleição e afirmam que Moscou pressionou a população a votar a favor da anexação. Apesar das leis ucranianas se assemelharem às leis russas, já foi anunciado que a moeda mudará e o fuso horário também... Com isso a população ucraniana que mora na Crimeia está bastante apreensiva. Mas as negociações mostram que os EUA começaram a ceder (a ideia norte-americana é de exercer influência sobre todo o território ucraniano e afastar as tropas russas do sul da Crimeia, assim como do Oriente Médio, coisa inimaginável para a Rússia que sempre esteve presente na região).

 

Qual lhe parece ser a consequência desse referendo? Qual o sr. espera que seja a postura da Rússia e da Ucrânia a partir de agora? 

O maior problema ainda virá, pois a Crimeia depende quase que completamente da Ucrânia, em termos econômicos e de infraestrutura. O lado ocidental – liderado pela União Europeia e pelos Estados Unidos – já anunciou que está preparado para executar sanções econômicas contra a Rússia. Putin não dá sinais de recuo, pois a política da União Europeia se mostra como de afastamento econômico dos países que geograficamente nasceram em Versalhes e desde lá estiveram economicamente próximos da Rússia e que sempre foram considerados países-satélites russos. Essa política de afastamento é uma ameaça para Putin, isto é, de um lado o rival histórico (EUA) e de outro lado, o aliado do rival histórico como uma ameaça. Não há como a Rússia ceder, pois a tensão está na fronteira do seu território e envolvem questões de sustentação econômica para o território russo, como externei em respostas anteriores.

 

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Texto: Gilbert Di Angellis. Entrevistado: Marcos Brandão. 17/03/2014

 
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